Do caminho do café que freqüentávamos perto de nossos empregos resolvi pegar um rumo que me desse resposta para tantas perguntas na minha cabeça. O silêncio tem o peso do mundo quando nele jazem todas as palavras que você não tem forças para exprimir – porque ferozes.
Poucas vezes na vida experimentei a sensação fantástica de não precisar dizer qualquer coisa a 20cm de distância de uma pessoa; ele me olhava e entendia – assim, sem julgar, sem criticar, nem cobrar, sem beijar para que eu parasse de falar/pensar. Simples assim, confortável.
[No one knows except the both of us. This won’t work now the way it once did. I spent so much time in survival mode]
[Who doesn’t long for someone to hold?]
O conforto sufoca quando se aprende a viver nas adversidades. Ele é o meu conjunto: carne e encanto. Em um momento de nossa rotina eu tive um devaneio que me trouxe num lampejo de obviedade a certeza de que aquilo tudo era absoluto, era certo, era concreto, era seguro. Assustei-me. Ou não é direito de todo ser humano ser refém de seus sentimentos? Ou não é prerrogativa da mulher desconfiar de qualquer apresentação de certeza que se apresente em frente a ela?
[Anyone who can touch you can hurt you or heal you. Anyone who can reach you can Love you or Leave you]
Da abstinência de carinho em que eu vivia antes de conhecê-lo, até ser englobada por braços firmes, passei pelo doloroso processo do desprendimento de todos os meus costumes, manias e velhices da solteirice que parece infinita. Abri mão do meu sagrado silêncio no balcão do bar tomando minha dose semanal refletindo sobre novos personagens, contrariedades familiares e nos corredores de meu edifício interior: meus segredos, minhas alegrias, meus defeitos tudo ali, guardado, para ninguém conhecer. Precisei me desfazer do meu mundo só meu e deixar que ele construísse o seu próprio, dentro de mim.
Precisei me ver mulher-amiga-irmã, cuidadora e cuidada, dona do meu lar. Precisei aceitar dividir a cama e não abrir mão, precisei lançar mão da coragem de novos pratos, novas roupas íntimas. Precisei aprender o traquejo da convivência. E me descobri ótima no exercício da rotina. Esse bem que tanto procurei durante vidas, histórias, crônicas, contos, procurei comigo mesma, com o trabalho, mas aprendi com ele, aprendi a amá-lo e a querê-la: a rotina.
Dizem que o início de relacionamento é sempre flores, “depois piora, amiga”. No nosso caso a rotina e o silêncio foram a garantia de que era exatamente o que procurávamos na vida e um no outro – não esperar mais sobre as imprevisibilidades do(a) companheiro(a). Era assim, eu o lia, ele me lia, não havia subterfúgios, passado obscuro. Foi esse o problema?
Entre o manjericão que coloquei sobre o molho da massa no jantar de ontem e a taça de vinho costumeira porque precisava concluir aquele ensaio, decidi que o tenho amado tanto que me perdi nesse continuum que temos sido os dois. Não lembrava mais a última vez em que fiz algo pensando apenas em mim, tive medo de não me amar mais do que o amava, medo de ele de repente decidir partir, sem mais, porque é assim que ele é: fugitivo das relações humanas, da necessidade de explicação. Encantei-me porque ele era exatamente assim, sem brincadeirinhas ou extensão do que precisava ser dito ou percebido.
[It’s not hard to fall when you float like a cannonball]
Desde o primeiro minuto em que nos vimos eu percebi o interesse dele. Como sempre, o silêncio se traduz pelos olhos e os dele me percorriam. E enquanto conversava com outras pessoas naquele bar, e eu estava concentrada na minha margarita pensando no fim da terapia, ele fazia questão de puxar assunto comigo a cada três minutos, só para que eu erguesse o olhar e me encontrasse com o dele.
Talvez se na juventude nossos caminhos nunca tivessem se cruzado. A maturidade nos trouxe a certeza de que não era apenas a beleza que procurávamos em um relacionamento. Eram os detalhes. O gosto dele, o cheiro dele no meu travesseiro, a teimosia em usar o meu shampoo, de tirar o pimentão do meu prato – que eu odeio e ele adora, de tomar do meu copo de suco depois de dizer ao garçom que não queria suco, de apertar o meu nariz à noite antes de dormir.
As constantes reclamações para com o meu vinho de todo dia, aqueles jogos de futebol infindáveis, o café super-doce que ele adora, começavam a incomodar.
O silêncio eu digeria, mas a proximidade exacerbada me preocupou – foi isso. De repente me vi assustada com essa segurança, com a possibilidade do silêncio ad aeternum. Porque eu sei o que ele dizia com o olhar, mas o que eu guardava era negativo e eu sei que incomodaria.
Mas eu quero voltar, quero envolver todo aquele meu homem, meu marido. Quero fazer o jantar e dizer o que estava incomodando para que não me irrite mais – sabendo que nesse momento é melhor conversar que partir. Não era partir que eu precisava, era me enfiar mais nessa relação de interdependência incurável. Quantas outras mulheres não enfrentaram esse momento do medo de perder o que parece perfeito simplesmente por receio de que o outro resolva que “já deu o que tinha que dar” e simplesmente se desespera com a possibilidade da solidão depois de ter desconstruído todo o seu forte de guerra? Poucas, eu respondo para mim mesma. Viemos todas com o defeito de fábrica da carência da compleição – e é deveras doloroso nos ver dependente emocionalmente, entregues.
[Stay with me. My Love, I hope you’ll always be right here by my side if ever I need you. In your arms I feel so safe and so secure. Everyday is such a perfect day to spend along with you I will follow you will you follow me all the days and nights?]



4 Comenta aqui, ó, aqui, viu?!:
Lindo texto! Li escutando Duffy, Recomendo!
"...Viemos todas com o defeito de fábrica da carência da compleição – e é deveras doloroso nos ver dependente emocionalmente, entregues."
Lindooo!
voltou com tudo hein?!
olha, eu não vou mesmo escrever mais. Achei definitivo. E pessoal. Ela sou eu. E é isso que incomoda.
Maravilhoso, Amélia.
Amei.
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